A Supremacia de Pedro
- Resposta Ortodoxa
- 11 de out. de 2021
- 8 min de leitura
Atualizado: 21 de mai. de 2023
Numa postagem, certo apologista latino respondia a seguinte pergunta: "Por que é tão difícil para os ortodoxos aceitarem o papado?" A resposta do apologista é de que não seria tão difícil assim, pois a pessoa deveria ter tido contato somente com uma "versão rad-traste ortodoxa", presente na internet e de que, como já aceitamos a primazia de São Pedro, só nos faltava aceitar a supremacia. "
A primeira coisa a dizer é que não existe nenhuma "versão rad-trad ortodoxa". É comum que acadêmicos latinos estejam acostumados a indivíduos adeptos do liberalismo teológico ou mais ecumenistas apresentados como teólogos ortodoxos. O problema é que a academia não representa a Fé Ortodoxa, talvez, por esse motivo, pareça a esse apologista que a Igreja esteja aceitando a supremacia papal ou mesmo "retornando à comunhão com Roma".
Em outra oportunidade, diz que a pessoa nunca sairia do Protestantismo se não tivesse método, que seria investigando a questão do Sola Scriptura, no que também concordamos, e de que para "sair da Ortodoxia" teria que investigar a questão da supremacia de São Pedro.
Pois bem, então vamos investigar o conceito de supremacia na Igreja:
A Igreja Ortodoxa sempre reconheceu que, entre o grupo dos apóstolos, Pedro exercia primazia. No entanto, uma coisa é o ministério pessoal de Pedro, e outro o de sua sucessão. São questões distintas. Não obstante, a Igreja sempre entendeu que primazia não significa supremacia.
Em Atos 15.4-22, no concílio de Jerusalém, Pedro se submete ao consenso dos apóstolos e bispos, assim como à autoridade de Tiago que presidia o concílio, sendo que, no verso 19 São Tiago relata a decisão tomada de forma conciliar.
A relação entre a primazia de Pedro e questões papais é um non-sequitur (falácia lógica). Caso as prerrogativas alegadas tivessem existido em algum momento histórico, devido à sucessão de Pedro, o Patriarcado de Antioquia também as possuiria e, talvez, também o de Alexandria, dado que São Marcos é um sucessor de Pedro, que além de ser citado no Novo Testamento, também é autor de um evangelho.
Os Padres da Igreja enxergavam da mesma forma, a princípio, sua primazia se dá na confissão que faz sobre o Cristo, levando a outro entendimento, em nenhum há uma visão de supremacia:
"Orígenes dá uma extensa explicação acerca da passagem de Mateus 16.18, dizendo que 'Simão se tornou a Rocha sobre a qual a Igreja é fundada porque expressou a verdadeira crença na divindade de Cristo'. Assim, de acordo com Orígenes, todos os salvos pela fé em Jesus Cristo recebem também as chaves do Reino: em outras palavras, os sucessores de Pedro são todos os crentes."
— Pe. John Meyendorff
"Se também dissermos, Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo, então também nos tornamos Pedro... pois quem assimila a Cristo se torna a Rocha. Cristo dá as chaves do Reino somente a Pedro, enquanto outras pessoas abençoadas não podem recebê-las?"
— Orígenes
"O Senhor dá as chaves a Pedro e a todos aqueles que se assemelham a ele, de modo que as portas do Reino dos Céus permanecem fechadas para os hereges, mas são facilmente acessíveis aos fiéis."
— Teófanes Kerameus, pregador do século XIII
"Uma tradição patrística vê a sucessão de Pedro no ministério episcopal de forma muito clara. É bem conhecida a doutrina de São Cipriano de Cartago em relação à 'Sé de Pedro' como estando presente em todas as igrejas locais, e não apenas em Roma.
São Gregório de Nissa, afirma que Cristo 'através de Pedro, deu aos bispos as chaves das honras celestiais' e ao falar dos "hierarcas' da Igreja, refere-se imediatamente à imagem de São Pedro. Uma análise cuidadosa da literatura eclesiástica, tanto oriental quanto ocidental, do primeiro milênio, incluindo documentos como a vida de santos, certamente mostraria que essa tradição é persistente; e, de fato, pertence á essência da eclesiologia cristã primitiva considerar qualquer bispo local como mestre de seu rebanho e, portanto, cumprir sacramentalmente, através da sucessão apostólica, o ofício do primeiro verdadeiro crente, Pedro."
— Pe. John Meyendorff
Essa tradição da "Sé de Pedro" presente em todas as cátedras episcopais vemos claramente em Mateus 23.1,2, quando Jesus se refere à cátedra de Moisés: "Então falou Jesus à multidão, e aos seus discípulos, dizendo: Na cátedra de Moisés se assentam os escribas e os fariseus."
Aqui, Jesus simbolicamente nos ensina o significado católico ortodoxo da fonte de autoridade. De fato, esse símbolo era mesmo material, pois a "cátedra de Moisés" eram os assentos dos fariseus e escribas, nas centenas de sinagogas por todo lugar onde haviam judeus. Sentavam-se ali as autoridades do povo de Deus, todos igualmente na "cátedra de Moisés", a qual encontra sua renovação no catolicismo ortodoxo na "cátedra de Pedro", presentes em todos os sínodos episcopais ortodoxos.
"Ele (São Pedro), então que antes estava em silêncio, para nos ensinar que não devemos repetir as palavras dos ímpios, quando ele ouviu: 'Mas vós, quem dizeis que sou', imediatamente, não esquecendo de sua posição, exerceu o seu primado, isto é, a primazia da confissão, não de honra; a primazia da fé, não de posição. Este, então, é Pedro que respondeu pelo resto dos Apóstolos e antes que outros homens..."
— Santo Ambrósio
"A todos os apóstolos, depois de sua ressurreição, Ele dá um poder igual... os outros apóstolos também eram o que Pedro era — dotado de uma comunhão igual de honra e poder..."
— São Cipriano de Cartago
"Os outros apóstolos foram feitos iguais a Pedro em uma comunhão de dignidade e poder."
— Santo Isidoro de Sevilha
"Embora possa parecer que esse poder de desligar e ligar tenha sido dado pelo Senhor apenas a Pedro, devemos, contudo, saber que foi dado aos outros apóstolos, como o próprio Cristo testemunhou quando, após o triunfo de Sua paixão e ressurreição, Ele apareceu a eles e assoprou sobre eles, e disse a todos: 'Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados lhe serão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhe serão retidos."
— São Beda
"Portanto, um é Cristo, tanto Filho como Senhor, mas não com o tipo de conjunção que um homem pode ter com Deus como unidade de dignidade e autoridade. A igualdade de honra por si só é incapaz de unir naturezas. Porque Pedro e João eram iguais em honra um ao outro, sendo ambos apóstolos e discípulos sagrados, mas eram dois, não um..."
— São Cirilo de Alexandria
"O que diz então Cristo? Tu és Simão, o filho de Jonas, agora se chamarás Cefas. Assim como proclamaste meu Pai, também lhe dou o nome daquele que o gerou; não disse: Como tu és filho de Jonas também sou de meu Pai.
Senão, não era necessário dizer: Tu és filho de Jonas; mas como ele tinha dito: Filho de Deus, para assinalar que Ele é tão Filho de Deus, como o outro filho de Jonas — da mesma substância com Aquele que O gerou — portanto, Ele acrescentou isto: 'Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja' (Mateus 16.18); isto é, sobre a fé de sua confissão."
— São João Crisóstomo, homilia 54 - sermões acerca do Evangelho de São Mateus.
"Agora, confidentemente digo: aquele que chama a si mesmo, ou deseja ser chamado de Bispo Universal é, em sua presunção, o precursor do Anticristo, pois orgulhosamente coloca-se acima de todos os outros."
— São Gregório Magno
"Em certa passagem falei a respeito do apóstolo Pedro que sobre ele, como sobre uma pedra, foi fundada a Igreja. Este sentido é também cantado pela boca de muitos dos versos do beatíssimo Ambrósio, onde fala do canto do galo: 'Ele, pedra/Chora sua culpa ao cantar o galo'.
Mas sei que expliquei depois de muitas vezes que o dito pelo Senhor: 'Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei minha Igreja', se entendesse sobre aquele que Pedro confessou, ao dizer: 'Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo', e assim Pedro, denominado 'pedra', significaria a pessoa da Igreja que é edificada sobre esta pedra, e recebeu as chaves do Reino dos Céus. Pois não lhe foi dito: 'Tu é pedra'; mas: 'Tu és Pedro'. 'E essa rocha era Cristo', a quem Pedro confessou, como é a fé de toda a Igreja, e foi chamado Pedro. Mas entre as duas opiniões, o leitor escolha a mais provável.
— Santo Agostinho - Retratações
A Igreja não se baseia na opinião de um Santo Padre, baseia-se no consensus patrum, que indica a verdade doutrinal e a autoridade dogmática da Tradição da Igreja, que é o testemunho comum de todos, ou pelos menos da maioria, dos Santos da Igreja. Isto coloca uma barreira intransponível no caminho daqueles que gostariam de introduzir algum ensinamento novo ou moderno na Ortodoxia.
A única forma de validar uma falsa doutrina, apelando para os Santos Padres ou para a Tradição, é por meio da falsificação e da narrativa. O problema é que isso não dura para sempre e a verdade se impõem, no fim das contas.
O Ocidente passou centenas de anos alegando que sua "jurisdição universal" sempre foi incontestável e presente na história da Igreja desde o primeiro milênio. Para frustração dessas pessoas, o Vaticano emitiu um documento em 2016, produzido pela "Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas", chamado "Sinodalidade e Primazia Durante o Primeiro Milênio". O documento afirma que a Igreja de Roma não exercia autoridade sobre as Igrejas do Oriente. Como descrito no 19º parágrafo:
"19. Ao longo dos séculos, muitas apelações em matéria de disciplina foram dirigidas ao Bispo de Roma, também do Oriente, tais como, sobre a deposição de um bispo. Uma tentativa foi feita pelo Sínodo de Sardica (343), que estabeleceu regras para tal procedimento. Sardica teve sua recepção no Concílio de Trullo (692). Os cânones de Sardica determinaram que um bispo condenado pode apelar ao Bispo de Roma, e que este último, se lhe parecer apropriado, pode pedir um novo julgamento que será conduzido pelos bispos da província vizinha do próprio bispo. Recursos em matéria disciplinar também foram dirigidos à Sé de Constantinopla, e as outras Sés. Tais apelos dirigidos às Sés mais importantes, sempre foram tratados de forma sinodal. Apelos do Oriente ao Bispo de Roma expressaram a comunhão da Igreja, mas o Bispo de Roma não exercia sua autoridade canônica sobre as Igrejas do Oriente."
Agora observe uma questão levantada por um teólogo latino, chamado Adam A. J. Deville:
"Os apelos do documento à história são, como eu disse, bem conhecidos e comuns hoje em dia. Mas eles levantam muito mais perguntas do que respondem, e em nenhum lugar isso é mais convincente do que quando consideramos a cláusula final do parágrafo antepenúltimo, cuja brevidade esconde o que é sem dúvida a afirmação mais potencialmente revolucionária em todo o texto: “o Bispo de Roma não exercia sua autoridade canônica sobre as Igrejas do Oriente"(n.º 19).
Este é um fato comprovadamente verificável da história, portanto, de certa forma completamente inquestionável. Mas, ao mesmo tempo, levanta a questão de como conciliar essa afirmação histórica sobre o primeiro milênio com as reivindicações dogmáticas do segundo milênio, que é as reivindicações dogmáticas do Vaticano I de que a “a Santa Sé Apostólica e o Pontífice Romano têm o primado sobre todo o mundo” (Pastor Aeternus s.1); que a “Igreja Romana, por disposição divina, tem o primado do poder ordinário sobre as outras Igrejas ... em todo o mundo” (s.2); e que esse primado é sempre sobre a “toda a igreja” (uma frase repetida mais de uma dúzia de vezes no Pastor Aeternus).
Como podemos conciliar o fato dogmático das reivindicações universalizantes do Vaticano I com o fato histórico agora admitido publicamente das limitações regionais da autoridade do bispo de Roma no primeiro milênio?"
Essa é a questão. Como conciliar o reconhecimento desse fato com a pretensão de prerrogativas do Vaticano I? Reconhecendo aquilo que a Ortodoxia sempre afirmou:
Roma, ao se separar da Igreja, inicia uma nova eclesiologia, que se afasta da eclesiologia do primeiro milênio no decorrer dos anos.
Fontes:
The Primacy of Peter - John Meyendorff.
A Rebuttal of Roman Catholic Claims of Superiority and Infallibility of the Pope - John C. Pontrello.
The way forward after the Catholic-Orthodox agreement on primacy and synodality - Adam A. J. Deville
5 SIMPLE ARGUMENTS AGAINST THE PAPACY - Jay Dyer
